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Você sabe o que é linchamento ou cancelamento virtual?

Foi só declarar que a “música brasileira está uma merda”, para Milton Nascimento, 76 anos, enfrentar uma enxurrada de críticas e cancelamentos nas redes sociais. Já a blogueira Alinne Araújo, 24, recebeu uma série de comentários negativos dos seguidores quando decidiu casar consigo mesma, após ter sido abandonada no altar. Acusada de querer chamar a atenção, Alinne enfrentou um linchamento virtual tão intenso que não aguentou e tirou a própria vida.

Em ambos os casos, fica a questão: é possível errar ou discordar na internet? Como sobreviver à violência psicológica presente no mundo digital? “Já passei por um linchamento, sei como é doloroso e sei que o processo não ensina ninguém, só faz as pessoas se sentirem violentadas”, desabafa o youtuber e publicitário baiano Spartakus Santiago, 25, que fez uma vaquinha coletiva para consertar seu computador e foi criticado por uma frase usada na campanha.

“Eu racializei a questão de não poder comprar um macbook e a frase foi tirada de contexto. Então fiz um vídeo de resposta, mas isso deu mais munição para meus haters e foi virando uma bola de neve gigante”, lembra Spartakus. “Talvez eu tenha falado uma bobagem, mas ninguém ficou preocupado em me explicar, só em me punir. As pessoas não têm noção do que é passar por um linchamento. Me senti humilhado publicamente”, desabafa o youtuber, que chegou a ter crise de pânico.

Após superar o episódio, Spartakus reposicionou seu conteúdo e repensou a forma de se comunicar. Por conta da mudança, conseguiu fechar mais contratos. “As pessoas que tentaram me atingir com o linchamento, me deram muito dinheiro (risos). Somos responsáveis por nosso futuro”, ressalta o youtuber, que há  uma semana postou um vídeo em seu Instagram como se estivesse atacando uma pessoa.

Alinne Araújo não aguentou a pressão dos internautas (Foto: Reprodução)

Em um trecho da gravação, que simula um tom agressivo, Spartakus dispara: “Você não vai acreditar! Essa garota é uma vergonha. É horrível, um desserviço para a sociedade. O que ela falou é inaceitável! Ahhh, mas eu vou expor ela, eu vou denunciar, sim!”. Então, ele continua: “Com tantos seguidores, como ela se dá ao luxo de… Errar?”. É aí que Spartakus revela a real intenção do vídeo, que é convidar os seguidores para debater o assunto, já que “as pessoas erram”.

Olho no olho
No reality show Big Brother Brasil, quem vacila  dentro do programa vai para o paredão e pode ser  eliminado. Na internet, a pessoa é cancelada depois de um linchamento virtual que nem sempre tem a violência física concretizada, mas principalmente a violência moral e psicológica. “Como a sociedade está baseada em vigiar e punir, na internet isso se intensifica”, alerta Spartakus.

Um dos motivos para que a agressividade verbal seja potencializada no mundo virtual é a ausência do “olho no olho”, destaca a psicóloga Juliana Cunha , 41, diretora da ONG soteropolitana SaferNet Brasil, que atua no combate aos crimes cibernéticos no país. “As relações face a face nos dão um aspecto importante para a vergonha, que é a questão do olhar do outro. O olhar é uma fonte de censura em que a gente aprende”, explica.

A ausência desse olhar “suspende a vergonha”, suprime “esse mecanismo de maior filtro de como você vai falar”, continua a psicóloga. “A internet tem pouco mais de duas décadas e a gente está aprendendo as regras de etiqueta”, completa Juliana, ao citar que o “caps lock” é lido nas redes como um grito, por exemplo.

Outro fator que faz com que as pessoas exponham mais suas opiniões é a presença de uma hierarquia atenuada, explica a especialista. A existência de relações mais horizontais e menos hierarquizadas fazem uma pessoa que está diante de uma figura pública ou famosa achar que está interagindo de igual para igual.

“Acho que isso contribui para as pessoas colocarem sua opinião, se manifestarem. Além disso, na internet existe o efeito manada: essa psicologia das massas em que as pessoas são levadas. É uma arena pública que favorece esse comportamento. O efeito, quando você vê, atinge uma proporção imensa”, destaca Juliana.

Entre as violências mais vividas pelos usuários do serviço de denúncia da SaferNet Brasil, as discriminações e intimidações (ciberbullying) ocupam o segundo lugar, atrás apenas da exposição íntima (nudes). Segundo dados fornecidos pela ONG, no ano passado houve um aumento de 13,4% de denúncias de ciberbullying em relação ao número de casos reportados em 2017.

Chama a atenção o fato de que 68% dos pedidos de ajuda relacionados a intimidações sofridas na rede foram feitos por meninas e mulheres, “o que levanta a hipótese de que mulheres são mais vulneráveis a sofrerem intimidação e discriminação online”, destaca a diretora da SaferNet.

Dados da SaferNet mostram casos de Cyberbulling no país, nos últimos anos (Infográfico: Morgana Miranda/CORREIO)

Boas práticas
“Enquanto o algoritmo das redes sociais priorizar o ataque, que é uma forma fácil de ganhar seguidores, isso não vai parar”, alerta Spartakus. Então, o que fazer para manter a mente sã? Diante da realidade que é recente, alguns caminhos ainda estão sendo traçados. Um deles é um projeto sobre a saúde mental entre criadores de conteúdo, que será lançado no final de outubro pelo coletivo sem fins lucrativos Papel e Caneta, que atua em sete cidades do mundo. Tendo Spartakus e a youtuber Ellora Haonne como ativistas, o projeto propõe formas de manter o equilíbrio na internet.

“Levantamos alguns pontos para criar um grande guia. Falamos sobre como é importante planejar a criação do conteúdo, explicamos por que os criadores estão cada vez mais esgotados, mostramos como lidar com a ansiedade para crescer rápido, falamos sobre a ideia de que você não precisar ser um personagem e sobre como separar a vida pessoal da vida pública. É importante manter a privacidade”, destaca o publicitário sergipano André Chaves, 30, idealizador do coletivo Papel e Caneta.

“Enquanto o algoritmo das redes sociais priorizar o ataque, que é uma forma fácil de ganhar seguidores, isso não vai parar”, alerta Spartakus, sobre o linchamento virtual

Líderes criativos de diferentes agências de propaganda trabalharam ao lado de ativistas em causas sociais nesse projeto, cujo objetivo é também desmitificar a ideia de que criador de conteúdo é só aquele com 200 mil seguidores. “Criador de conteúdo é todo mundo que posta algo na internet e está exposto a crises de ansiedade, depressão. Porque é uma realidade, as pesquisas apontam isso”, destaca André, que já realizou projetos com comunidade trans negra, refugiados e jovens da periferia.

Além do guia do Papel e Caneta, a SaferNet também tem uma cartilha que ensina como combater o ódio online. O conjunto de boas práticas estimula a empatia de se colocar no lugar do outro e entender o contexto, a não responder no calor do momento e a estar aberto a falar com quem discorda da gente. Além disso, a cartilha mostra a importância de ter apoio, porque muitas vezes as pessoas enfrentam sofrimentos e isolamento intensos.

“O aspecto ainda tímido do modo como as pessoas são responsabilizadas na internet contribui para ser uma ‘terra sem lei’, mas não acredito que aplicar leis mais duras vá resolver”, opina a psicóloga Juliana Cunha. Para a diretora da SaferNet, faltam políticas públicas sobre cidadania digital e o ensino nas escolas das regras de respeito, convívio e ética na internet. “A internet é só um espelho do nosso comportamento. Desigualdade e polarização vão inevitavelmente parar lá. A mudança tem que vir de fora”, defende.

Dicas de boas práticas (fonte: Safernet)

1 – Entenda o contexto
A melhor forma de argumentar é tentando entender o ponto de vista da outra pessoa. Procure compreender o que a levou a pensar daquela forma: isso ajuda a enumerar os pontos fracos do argumento

2 – Critique o argumento, não a pessoa
Procure se ater à mensagem, e não a quem a propagou. É difícil chegar a um acordo ou manter uma conversa respeitosa se as críticas se tornarem pessoais

3 – Aceite divergências
Nem toda discussão é briga. Por isso, não há problema em existirem diferentes pontos de vista e discordância (desde, é claro, que o ponto de vista não viole a dignidade de ninguém)

4 – Seja propositivo
Muitas vezes, focar nas possibilidades de solução (ou nos exemplos que as representam) é muito mais eficiente do que simplesmente apontar o problema. Confie nas soluções

5 – Aprenda com quem vive na pele
Se você não pertence a um grupo, mas tem interesse em falar sobre ele, consulte quem faz parte para saber a melhor abordagem 
e como você pode ser um aliado (a)

6 – Promova a igualdade
Não reproduza a discriminação, mesmo que em pequena escala. Busque sempre a promoção da igualdade

7 – Busque a melhor interpretação
Muitas vezes nos concentramos no ponto que pode ser mais criticado na fala do outro, mesmo que tenha sido mal formulado. Busque a melhor interpretação

8 – Evite confronto direto
Na maior parte das vezes, responder diretamente é tudo o que o opressor quer para continuar com as mensagens agressivas. Veja se vale a pena gastar seu tempo respondendo

9 – Não use estereótipos
Evite descrever grupos diferentes com as mesmas palavras, reforçando estereótipos. Essa é a lógica que opressores costumam usar. Não desumanize seu interlocutor (a)

10 – Não grite
Evite escrever em caixa alta – o que é lido como grito na linguagem da internet

11 – Não alimente os trolls
Tem gente que só quer causar. Assim, propaga mensagens de ódio justamente para gerar buzz (barulho) e desestabilizar as pessoas. Em muitos casos, o melhor a fazer é denunciar e ignorar

12 – Não estimule o ‘nós x eles’
Muitas vezes é inevitável se opor a alguém. Mas se prender a essa visão pode limitar nossa capacidade de compreender e dialogar com o diferente. Se a pessoa pode se tornar aliada, #chamapraconversa

13 –  Não fique na defensiva
Ficar na defensiva ou tentar justificar um ato de intolerância impede qualquer possibilidade de reflexão. Aceitação e reconhecimento podem ser os primeiros passos para a mudança

14 – Não banque o justiceiro
Bancar o justiceiro nas redes sociais não é solução. Incentivar a vingança ou justiça com as próprias mãos, incitando o coletivo, pode gerar consequências graves e não ataca a raiz do problema

Fonte: Correio 24 Horas

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