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Único soteropolitano no Bolshoi faz vaquinha para conseguir se manter na escola

Foto: Acervo pessoal

Jonathan era inquieto. Para conseguir acalmar a fera, o policial militar Josué dos Santos, pai do menino, costumava levá-lo para a rua. Topava qualquer programa para gastar a energia quase ilimitada do garoto. 

Quando a filha do meio passou para a segunda fase de um concurso de música, não pensou duas vezes antes de levar o caçula para ajudar na torcida.

Mal sabia ele que as danças, pulos e escaladas, além da tradicional abertura de pernas em 180º que o pimentinha realizava em casa, fizeram com que Jonathan se transformasse no filho que sairia de lá comemorando uma aprovação.

Explica-se: naquele dia, em julho de 2018, além do concurso de música, acontecia também uma seletiva para conquistar uma bolsa na concorrida Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, a primeira e única extensão do famoso balé russo de Bolshoi e sua aclamada escola em Moscou, no mundo.

Ao ver a aglomeração de crianças, Jonathan pediu para participar e o pai deixou. Após a seletiva, dentre as centenas de meninos e meninas que treinavam balé há anos, aquele que praticou a arte pela primeira vez naquele dia foi, para surpresa geral, o único aprovado para a fase seguinte.

Sorte de principiante? Amor à primeira vista? Escolha seu clichê favorito. Fato é que o talento e a paixão pela arte sempre estiveram lá, só não tinham percebido. Os professores do Bolshoi o descobriram e não deixaram a elasticidade natural do menino de 10 anos passar batido. 

Escalada
O problema é que o garoto acostumado a escalar enquanto brincava precisaria conjugar o mesmo verbo para conseguir virar bailarino, porém, desta vez, no sentido de superar um desafio.

O primeiro contratempo não tardou a aparecer. A segunda etapa da seleção aconteceria em Joinville (SC), cidade onde a escola fica. Para conseguir comprar as passagens, o painho Josué precisou fazer um empréstimo de R$ 6 mil.

Já em solo catarinense, desta vez Jonathan iria concorrer contra outra centena de crianças de outros estados e até países. Tirou de letra e foi novamente aprovado.

Em meio à comemoração, uma preocupação tomou conta dos pais do garoto: como uma família simples, moradora de São Gonçalo do Retiro, periferia de Salvador, iria sustentar o menino numa cidade onde apenas o aluguel da casa custaria R$ 2 mil? E isso durante os oito anos de curso!

A solução encontrada pela família foi a criação de uma vaquinha virtual, e a história dela foi contada pelo CORREIO em janeiro deste ano. Os R$ 39 mil arrecadados foram o suficiente apenas para sustentar Jonathan, sua mãe Denise Fernanda, 51, e a irmã Samantha dos Santos, 14, que o acompanharam na saga em solo catarinense durante o ano de 2019. 

Jonathan fazendo a famosa escalada (Foto: Arisson Marinho / Arquivo CORREIO)

Para 2020, a família precisará de mais recursos para conseguir se manter e dar o suporte a Jonathan. A saída encontrada foi a mesma adotada para este ano. Quem quiser e puder contribuir, poderá fazê-lo acessando este link. A meta é arrecadar R$ 40 mil.

“Seria muito triste ter que trazer meu filho de volta depois de tanta conquista. Interromper este sonho depois de tanta luta nossa e, principalmente, dele. Eu sou policial militar e a minha renda não possibilita manter as duas casas”, conta Josué.

Sonho
Jonathan é, de acordo com o pai, o único soteropolitano a estudar na premiada escola. E a possibilidade de levar o nome da capital baiana aos palcos do mundo é o que mais orgulha o PM.

Mas o maior sonho do pai coruja é que o filho crie um projeto para ensinar os jovens da comunidade o que aprendeu no Bolshoi.

“Não quero que o sonho de meu filho, uma criança humilde, pobre, da periferia, acabe. Ele é um representante do bairro, de Salvador e de toda a Bahia. O sonho que ele está tendo a condição de realizar, muitos outros jovens que nasceram no mesmo lugar que ele têm, mas não conseguiram realizar”, observa. 

Jonathan e seus colegas de turma (Foto: Acervo Pessoal)

Saudade
O mais duro para Josué acabou sendo ter que se afastar dos filhos e da esposa. Por conta do alto valor da passagem aérea, o pai só consegue rever a família a cada três meses.

“Mas é por uma boa causa. A prioridade é que ele fique bem lá e não falte nada. A saudade a gente acaba dando um jeito”, conclui.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier. 

Fonte: Correio 24 Horas

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