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Manifesto Por um mundo depois das nove da manhã

por Bruno D’Almeida

Fábio Tanajura acordou diferente naquela manhã. Estafa, estresse, canseira, irritação constante, dois xingamentos a um colega e uma falta de ereção o levaram à decisão de não ir trabalhar. Depois de vinte anos madrugando, sentiu a sensação de acordar sem horário determinado. Ligou para o trabalho e disse que estava doente. Foi para o computador e mandou ver em seu manifesto-desabafo:

“Eu odeio acordar cedo. Fico o dia inteiro com sono. De que adianta cumprir um horário tão chatinho e descumprir o direito augusto de viver bem? Passei minha vida inteira cumprindo com minhas obrigações e descumprindo os objetivos que tracei para mim. Tudo que tenho a fazer é viver como uma máquina de produção de força de trabalho com sentimentos amordaçados? Nada de poesia e de nostalgia, nada de pensar que sou gente e que posso acordar naturalmente? Sinto-me tão depressivo em levantar no horário que acordo antes do despertador só para ter o prazer de desligá-lo.

Ao acordar cedo demais, deixamos de contemplar a beleza das coisas. Fazemos tudo no automático. Imaginem milhões de beijos automáticos de bom dia flor do dia sem o menor amor acontecendo neste exato momento em algum lugar do mundo. Muita gente se deprime por causa disso e recorre a coisas esdrúxulas, aderindo a uma seita fabricada em manuais de auto-ajuda, que fazem uma lavagem cerebral e deixam você gritando de manhã cedo coisas do tipo bom dia plantinha, bom dia mundo, bom dia qualquer porcaria.

Sou a favor de um mundo que comece depois das nove da manhã. As pessoas chegariam tranqüilas ao curso de suas vidas. Imagine uma legião de pessoas sorridentes, libertadas de acordar com as galinhas. Imagine tirar as olheiras horrorosas do rosto.

Por isso estou criando o MCC – Movimento Consciente pelo Ócio. Sem pressas de carros, ônibus, metrô e motocicletas, todos os meios de transporte querem acelerar o mundo, mas o máximo que conseguem é uma profusão de engarrafamentos e tudo fica devagar às avessas. O mundo não agüenta a rapidez da velocidade paranóica e simplesmente para. Por que não assumimos conscientemente que podemos fazer tudo bem e devagar? Pense um pouco sobre isso.”

Tanajura terminou o texto, leu, releu, tirou os erros de ortografia, releu, lambeu e relambeu a cria, sua jóia rara da humanidade, mandou email para todo mundo e solicitando que fizessem o mesmo. Publicou no Facebook e distribuiu em todos os grupos de WhatsApp. Ainda disse que se todos fizessem isso, em cinco dias o mundo se tornaria um canteiro de felicidade.

Algumas pessoas parabenizaram Tanajura, mas outras reclamaram que ele deveria parar de mandar spam, essas mensagens com textos açucarados e utópicos, mas Tanajura nem ligava. Naquele dia, talvez somente naquele dia, ele sentia um misto de alegria comedida e sensação de dever cumprido, assistindo televisão às dez da manhã. O seu chefe ligou:

  • Não vem trabalhar não, vagabundo? Como é que você está doente, mas fica escrevendo besteira e mandando pra todo mundo? Levanta essa bunda da cadeira e vem trabalhar! Amanhã, assim, que você chegar, passe na minha sala.

Tanajura nem teve tempo de responder, o chefe desligou. No dia seguinte, passado o momento da epifania, lá estava Tanajura acordando às 4h50 da manhã, pegando o metrô já lotado às 6h. Consigo mesmo, dentro de seus pensamentos, Tanajura desejava um dia se libertar. Colocou o fone de ouvidos e ficou ouvindo Tempo Perdido.

Bruno D’Almeida é escritor e todo domingo publica uma crônica para o Mídia4p em parceria com a Carta Capital.

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Fonte: midia4p.cartacapital.com.br

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