Home / Destaque / ‘Escravidão não foi tão ruim assim’: os controversos comentários de turistas no sul dos EUA

‘Escravidão não foi tão ruim assim’: os controversos comentários de turistas no sul dos EUA

Há 154 anos, o Congresso dos Estados Unidos aboliu a escravidão. Desde então, somente cinco gerações de afroamericanos puderam nascer livres. Um total de 40% de todos os escravizados que foram levados para os EUA deram entrada no país via Charleston, na Carolina do Sul.

Charleston evidencia que o legado da escravidão ainda está presente no país, apesar de já ter transcorrido tanto tempo. No entanto, há, ainda, um debate sobre como esta cidade e até mesmo a nação devem abordar um passado tão terrível.

“‘A escravidão não era tão ruim’ é provavelmente o que mais ouvimos. As pessoas dizem que os escravos tinham um lugar para dormir, faziam refeições”, contou, à BBC News, a guia de turismo Olivia Williams, de 26 anos.

Ela trabalha na Fazenda McLeod. O local, recentemente, esteve no centro de uma polêmcia nas redes sociais, após alungs visitantes terem reclamado que os guias da fazenda, um antigo polo de escravidão, eram muito “realistas” em suas explicações sobre o tratamento a que os escravos eram submetidos por seus donos brancos.

“Não recomendo esse passeio, porque é muito politizado e voltado para direitos civis e o sufrágio de escravos. Nossa guia Olivia era muito enviesada e só falou de fatos escolhidos a dedo que se encaixavam em sua narrativa e, em grande parte, não eram adequados para uma visita a uma fazenda”, afirmou um visitante, que pontuou uma estrela das cinco possíveis para a atração.

Em outro comentário, pontuado com duas estrelas, uma visitante escreveu: “Eu e meu marido ficamos desapontados com o tour. Não fomos lá para ouvir uma palestra sobre como os brancos tratavam escravos, fomos para conhecer a história de uma fazenda sulista e suas instalações. O guia foi tão radical sobre o tratamento dados aos escravos que nos sentimos atacados e criticados sobre a escravidão”.

O local tem mais avaliações positivas do que negativas. No entanto, essas críticas deram ainda mais relevo a um debate que se desenrola em locais históricos de cidades como Charleston.

Durante muito tempo, turistas foram conhecer Charleston e suas fazendas pelo bucólico Sul do país. No entanto, essa indústria está se modificando gradativamente, porque alguns defendem que os visitantes devem ter conhecimento das verdades da escravidão em vez da narrativa romantizada vendida por tanto tempo, mesmo que isso os deixe desconfortáveis.

Ao entrar na Fazenda McLeod, uma placa na frente pergunta: “Você acha que os donos de fazendas como os McLeod passaram por momentos tempos atribulados de maneira diferente dos Dawson, dos Forrest e de outras famílias afroamericanas que moravam aqui?”.

No tour, a guia não fala diretamente as críticas controversas sobre o local. Mas faz um alerta ao cumprimentar quem chega. “Fazemos as coisas de forma um pouco diferente do que em outras fazendas em Charleston, porque concentramos nossa perspectiva nas pessoas escravizadas”, relata.

“O que vamos falar aqui hoje é difícil. Você pode se sentir desconfortável. Você pode se sentir chateado, triste ou com raiva, e isso é perfeitamente ok. Se você quiser ir embora, não vou me ofender”, acrescenta.

Parte dos visitantes diz nunca soube que os proprietários de fazendas faziam casamentos forçados entre escravos reputados como “fortes” para ter seus filhos adicionados ao seu “estoque”, que grávidas escravizadas ficavam deitadas para serem chicoteadas, a fim de proteger esse investimento, ou que trabalho começava desde os quatro anos de idade.

“É doloroso”, contou Michaela, uma jovem de Nova York. “Parece uma fábrica de filhotes, mas um milhão de vezes pior. Só a ideia de ignorar essa parte horrível da história me deixa mal. Eu chorei. Mas estou feliz por estar triste agora, porque precisamos saber o que aconteceu.”

LEIA TAMBÉM:

O post ‘Escravidão não foi tão ruim assim’: os controversos comentários de turistas no sul dos EUA apareceu primeiro em Mídia 4P.

Fonte: midia4p.cartacapital.com.br

Comentários

Veja Também

Mulher é morta por policial dentro de casa nos EUA enquanto jogava videogame

(Foto: Reprodução) Uma mulher foi morta a tiros dentro da própria casa por um policial ...

“Não vejo a questão racial como prioridade. Ser branco ou negro é uma questão menor”, afirma Félix Mendonça Jr. após se reunir com Vovô do Ilê

O presidente do PDT na Bahia e deputado federal Félix Mendonça Jr. afirmou ao portal ...

Monitor da Violência: Bahia é 3º estado com maior nº de pessoas mortas pela polícia no 1º semestre

As vítimas da violência em apenas uma semana no Brasil Foto: Editoria de Arte / ...

Sulli, ex-integrante do grupo de K-pop F(X), é encontrada morta em casa

A ex-integrante do grupo de K-pop F(X), SUlli, 25, foi encontrada morta nesta segunda-feira (14). ...

Modelo é solta dois anos após prisão por roubo em SP que ela nega: ‘Fui reconhecida como a criminosa negra do cabelo cacheado’

Após ter sido condenada a uma pena de mais de 5 anos por assalto a ...

Como saber se fui aprovado no Encceja?

A prova é aplicada pelo Ministério da Educação (MEC) e serve para avaliar os conhecimentos ...

“Negar e silenciar é confirmar o racismo”, diz o técnico Roger Machado

Roger Machado e Marcão trabalharam usando camisa do Observatória de Discriminação Racial no Futebol — ...

Em discurso escrito por governo, Elizabeth II reitera saída da UE em 31/10

O discurso da rainha Elizabeth II que reabriu oficialmente a sessão no Parlamento britânico, conferido ...

Primeiro-ministro da Etiópia ganha Nobel da Paz 2019

Por sua iniciativa decisiva para solucionar o conflito de fronteira com a vizinha Eritreia, no ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *