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Com greve da PM ou não, são as vidas negras que ficam no fio da navalha

Que a carne mais barata é a carne negra isso sabemos há muito tempo. Mas é quando a PM deflagra greve que essa violência contra os corpos negros, já tão gritante, ganha contornos ainda mais assustadores.

Na última greve da PM, em 2014, contabilizei corpos nas pedras frias do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. Mais do que isso, apresentei ao Ministério Público Federal (MPF), juntamente com Vilma Reis, que à época era presidente do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN), documento constando o número de mortos durante a greve, seus respectivos nomes, idades, bairro e, principalmente, a cor.

A cor da morte era preta. Aqueles corpos que jaziam sobre a pedra fria tinham cor. Os parentes que lastimavam também. Os bairros onde os corpos foram coletados da mesma forma. As características presentes que ocasionaram o óbito em muitos daqueles corpos eram similares: projéteis provenientes de armas de fogo entrando pelas costas e/ou pela parte posterior da cabeça — a maior parte das vezes a uma distância inferior a 5 metros e de cima para baixo, configurando, assim, características de execução sumária.

Quem apertou o gatilho tantas vezes? Não sei. Mas a média diária de homicídios durante a greve da PM ultrapassou a de 20 pessoas por dia. Isso mesmo. Mais de 20 pessoas foram assassinadas durante cada dia de greve.

Tráfico? Briga de vizinho? Justiçamento? Milícia? Polícia? Seria leviano aferir, mas uma coisa é fato: nunca recebi uma correspondência sobre o documento que demos entrada naquele ano. Sinceramente, não sei o que ocorreu.

Fato concreto é que áudios mostraram o grau de terror a que novamente o atual deputado estadual Marcos Prisco impôs à população, assim como a tensão que se estabeleceu naquele ano, inclusive com cerco ao Centro Administrativo da Bahia (CAB).

Como Conselheiro Nacional de Segurança Pública, me fiz presente e tentei auxiliar dentro do possível. Seja pela relação que tinha com o Ministério da Justiça, seja com os presidentes das Associações APPM/BA e ASPRA/BA. No final, intervenção do arcebispo, acordos estabelecidos e ordem restabelecida. Era o fim da greve.

No entanto, ainda hoje muitas famílias seguem dilaceradas e sem resposta frente ao encontro lúgubre com os corpos dos seus entes.

Dessa feita, em 2019, as narrativas começam a ser estabelecidas. A legitimidade do movimento deve ser levada em consideração, as ponderações do governo também; o que não pode é que mais uma vez a civilidade venha a ser derrotada pela barbárie.

Seja o jovem policial ou o jovem periférico, ambos são negros e o nosso sangue, das nossas comunidades, não deve jorrar sob nenhuma justificativa, quiçá para manter o patrimônio das elites que alimentam o racismo no país enquanto engordam seu patrimônio.

Ninguém pode ter dúvidas de que os policiais vivem parte da precariedade a que são expostos, e lutar por direitos deve ser defendido por todos que defendem a classe trabalhadora e que desejam um mundo onde os direitos humanos sejam tratados como prioridade, mesmo por aqueles que, por ventura, os destratam.

Decerto, uma coisa precisa ser o resultado final desse imbróglio: a melhoria da qualidade de vida dos policiais, assim como da população negra, que precisam ser a prioridade de qualquer governo.

Nossas vidas não podem mais ser o resultado dos privilégios que a elite angaria para si; uma vida não vale menos que o seu patrimônio. Já basta de estar no fio dessa navalha.

Marcos Rezende é candomblecista, mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pela Universidade Federal da Bahia, atuando nas temáticas de raça, direitos humanos, patrimônio, religiões afro-brasileiras e racismo religioso. Foi Conselheiro Nacional de Segurança Pública, de Direitos Humanos e de Promoção da Igualdade Racial. Atualmente, é bolsista do Centro Cultural África Caribe – Harlem-NY, além de coordenador Para Assuntos Internacionais do Coletivo de Entidades Negras (CEN) e membro do Conselho Editorial 4P

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Fonte: midia4p.cartacapital.com.br

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