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Com a morte da tartaruga Alagbá, perdemos uma biblioteca do povo yorubá no mundo

A morte da tartaruga Alagba, de 344 anos, no palácio de Ogbomosho, residência de um rei tradicional na Nigéria, Oba Jimoh Oyewumi, nos convida a explicar com detalhes a importância de tal animal para a cultural e a religiosidade africanas e afro-brasileiras. Por isso, estou aqui a escrever esse artigo.

Ogbomosho é uma cidade que fica localizada no reino de Oyó e que foi fundada justamente no século XVII — ou seja, a tartaruga Alagbá (nome da tartaruga e que na língua yorubá significa anciã) carrega consigo toda a história e a ancestralidade da cidade.

Além disso, o reino faz parte do complexo de cidades que é denominada Yorubaland (as terras dos povos yorubanos) e foi uma das poucas cidades que conseguiram resistir às invasões muçulmanas que ocorreram no século XIX.

Nessas cidades existem também tensões entre os governantes tradicionais, que por vezes ganham maior complexidade com as decisões políticas de formulação de leis das Câmaras de Vereadores ou Congresso Nacional, que só foram democraticamente eleitos a partir de 2011 — pois, entre a independência da Nigéria, que ocorreu em 1960, até 2010, ocorreu uma série de guerras civis onde governaram ditadores e civis não tão democraticamente eleitos.

Na verdade, não cabe no momento me alongar sobre as tensões reais do mundo yorubano e sua diversidade de reis, mas sim sobre a importância da velha e ancestral tartaruga Alagbá.

No que se conceitua o mundo dos yorubanos, Xangô é uma das suas principais referências reais e também mítica. No caso de Oyó, a cidade foi fundada por Oraniã e a sucessão foi feita por Dadá Ajaká, que foi destronado por ter perdido o controle político e militar da cidade. Xangô, o irmão de Dadá Ajaká, assume o poder e implementa uma série de políticas benéficas ao reino, governando m, assim, com tantas qualidades que acaba sendo divinizado.

Entre os animais que o representam estão o leão, pelo fato de ser o rei da selva e de poder então arbitrar acima dos demais, como também a tartaruga m, pela vida longeva remontando a ancestralidade e carregando consigo o mundo nas costas.

Com isso, de geração em geração os conhecimentos vão sendo acumulados e sendo anexados às vivências e experimentações. Também, pela demora e sabedoria de tomar as melhores decisões e, desse modo, buscando fazer isso da forma mais justa possível de fazê-lo.

Afinal de contas, Xangô é o Orixá da justiça e o seu Oxé (machado de duas lâminas) tem a equidistância milimetricamente calculada para não pender de forma injusta para nenhum dos lados.

Daí a importância dessa tartaruga e todo o seu conhecimento para o palácio, para a cidade, para a Yorubaland e todos os religiosos que seguem, mundo afora, a religião formatada a partir dessas raízes e tradições. Alagbá era uma biblioteca que, fisicamente, deixou de existir.

No Brasil, país que recebeu a maior leva de negros escravizados mundo afora, foram muitos os advindos do reino yorubano. E estes reconstruiram em nova modelagem a religião do candomblé, que tem a sua matriz no continente africano.

Essa religião se estabeleceu com tanto vigor e devoção a Xangô que, em Pernambuco por exemplo, a religião do candomblé chega a ser denominada de Xangô.

No caso da Bahia e no restante do Brasil, boa parte das Casas dedicam a sua cumeeira, o seu ponto de irradiação do Axé (o ponto central onde se emana o poder da Casa), a Xangô, o orixá da justiça.

Duas coisas justificam esse fato, o respeito, a força e o poder desde Orixá e o clamor por uma justiça para os cerca dos 22 milhões de pessoas negras escravizadas que chegaram no Brasil em mais de 350 anos de tráfico transatlântico e, mais ainda, pelos seus descendentes que até a atualidade continuam a buscar essa mesma justiça.

Por isso que acredito que Alagbá não morreu e jamais morrerá. Ela só perdeu a sua característica física, mas segue a carregar o mundo nas costas com todo o seu código, símbolos e sua ressignificação no Orum.

Olorum Kosi Purè Alagbá mi baba (que esteja na paz de Olorum minha Anciã ancestral).

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Fonte: midia4p.cartacapital.com.br

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