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Cadeirantes reclamam de dificuldades para ver jogos na Fonte Nova

Era uma quarta-feira quando Armando Bispo saiu de casa tranquilo. Apesar do nervosismo que o acompanha desde a infância em dia de jogo do Bahia, o administrador de 42 anos pelo menos tinha a certeza que não enfrentaria trânsito ou imprevisto para chegar à Fonte Nova, já que a bola só rolaria para o jogo do tricolor contra o Grêmio a partir das 21h30, um horário sem o caos no tráfego da capital baiana.

Por outro lado, antes de todo jogo, ele confessa que fica desgastado mentalmente e nada tem a ver com os acontecimentos em campo. O problema está nas arquibancadas da Fonte Nova. É que Armando é uma pessoa com deficiência e precisa de sua cadeira de rodas para se locomover.

O ritual prega que ele tem que assistir aos jogos no setor norte inferior, logo atrás do gol da ladeira da Fonte das Pedras. E basta algum outro torcedor levantar na fileira da frente que pronto: a visão fica completamente tapada e não dá para ver o jogo.

A situação é a mesma para todos os outros cadeirantes que frequentam a Fonte Nova e, por isso, um grupo foi criado e busca há mais de um ano melhorias por um objetivo aparentemente simples: assistir a uma partida de futebol. 

“A gente não consegue acompanhar. Não dá pra ver, simplesmente é impossível. Eu só venho pelo amor ao meu time. É um pecado eu vir aqui e não ver o gol”, desabafa Armando.

O Bahia voltou a mandar seus jogos na Fonte Nova a partir de 2013, logo após a reconstrução do estádio. Armando é sócio desde 2010, ano em que o tricolor conseguiu o acesso para a Série A. Associou-se para não perder mais os jogos depois de ter ficado na fila contra o Coritiba, que o Bahia empatou em 1×1 em Pituaçu na reta final daquela campanha, e não queria voltar a correr esse risco.

O problema de conseguir o ingresso foi resolvido, mas, agora, em uma arena no padrão Fifa, precisa lutar para enxergar o gramado da Fonte Nova.

Em setembro houve um encontro mediado pela Unidade da Pessoa com Deficiência, vinculada à Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre). A reunião teve representantes da torcida e também do Bahia, Arena Fonte Nova, Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (Comped) e outros órgãos ligados à luta de Pessoas com Deficiência (PcD).

Vice-presidente do Comped, Antônio Carlos Barbosa conta que esse encontro teve visita técnica feita por uma engenheira da prefeitura e gerou um relatório. O CORREIO teve acesso ao documento, que concluiu que “a visita técnica ocorreu de forma a observar visualmente os itens que não atendiam à NBR [Norma Brasileira] 9.050/2015, não sendo uma vistoria para emissão de um laudo de Acessibilidade porque não havia elementos técnicos para averiguação”.

Armando Bispo na Fonte Nova antes do jogo entre Bahia e São Paulo, em outubro (Foto: Vinícius Nascimento/CORREIO)

A visita técnica apontou erros no estacionamento do setor leste, em sanitários e também menciona a ausência de intérprete de libras na bilheteria da arena, descumprindo os artigos 6º e 7º do Decreto Federal 5.296/2004.

Contudo, não indicou nenhum vício construtivo no que diz respeito à visibilidade dos cadeirantes no estádio. Presidente do Bahia, Guilherme Bellintani afirmou à reportagem que o clube tem conhecimento da insatisfação dos torcedores e tem cobrado ajustes físicos à concessionária Fonte Nova Negócios e Participações, com que o tricolor compartilha a gestão do local.

Torcedor do Bahia, Omar Bispo, 42 anos, participou da reunião e pontua que a maior urgência é o problema da visibilidade do campo. Ele conta que também costumava frequentar Pituaçu, onde o Bahia mandava seus jogos antes da arena ser construída, e, no estádio mais simples, não enfrentava tal dificuldade porque os cadeirantes ficavam em espaço mais elevado em relação aos outros torcedores.

Omar aponta para o estádio. Bahia alega que entradas especiais foram criadas para facilitar o acesso dos cadeirantes não só pelo Dique  (Foto: Vinícius Nascimento/CORREIO)

Questionado pela reportagem, Bellintani reconhece o problema como um dos mais relevantes entre as reclamações feitas pelos tricolores, mas confessa que ainda não sabe como resolver.

“O local dos cadeirantes fica imediatamente atrás de uma fila [de cadeiras] apenas com um degrau acima. Se a pessoa da frente levanta para comemorar o lance, o cadeirante não vê o gol. Então esse é um problema que a gente ainda não sabe como superar, não tem uma perspectiva de como superar e tem conversado muito isso com a Fonte Nova porque consideramos que é um problema de vício construtivo em acessibilidade”, afirma o presidente do clube.

Por outro lado, o dirigente afirma que já se conseguiu chegar a alguns consensos, oferecendo melhorias para os cadeirantes. Um exemplo citado por Bellintani é em relação aos acessos ao estádio. Segundo ele, cadeirantes que antes precisavam dar volta para acessar pelo Dique têm a entrada facilitada por portões especiais espalhados pelo estádio.

“Esse é um problema que a gente ainda não sabe como superar, não tem uma perspectiva de como superar e a gente tem conversado muito isso com a Fonte Nova”, Guilherme Bellintani, presidente do Bahia.

Em nota, a Arena Fonte Nova afirmou que oferece condições de acessibilidade para cadeirantes e pessoa com deficiência desde a sua inauguração, em 2013: “A Arena Fonte Nova esclarece que, desde sua inauguração oferece condições de acessibilidade para cadeirantes e pessoas com deficiência (PcD). São ao todo 66 vagas exclusivas para cadeirantes, 358 para espectadores com mobilidade reduzida, 60 cadeiras para pessoas obesas e 500 para acompanhantes. Além disso, vem estudando formas de melhorar ainda mais as condições dos cadeirantes nos jogos, inclusive com entendimentos junto à Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, nesse sentido”.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (CREA-BA) declarou, também em nota, que “o Crea, juntamente com outros órgãos, realizou na época da Copa de 2014, uma verificação das condições de acessibilidade do estádio e que tudo estava em conformidade. A questão da dificuldade de visualização dos jogos por parte dos cadeirantes está mais relacionada a uma questão comportamental do que técnica”.

Apesar de concordar com o problema da educação alheia, Armando Bispo diz entender que a cultura local faz com que os torcedores, de qualquer time, se levantem na expectativa de ver a equipe marcar um gol. Por outro lado, ele acredita que é possível negociar com o fator cultural através de ajustes na estrutura do estádio.

“O Bahia vai pro ataque e todo mundo levanta, é a cultura da gente. Eu sou baiano e sei. (…) Tenho força no braço e consigo me pendurar [na barra de ferro que faz a contenção da cadeira], mas tem um senhor de idade que assiste com a gente e não consegue”, aponta Armando.

Sugestões
Tanto Omar quanto Armando acreditam que, se for criada uma elevação para as cadeiras de rodas, o problema será resolvido. Os dois torcedores apontam o Mané Garrincha, em Brasília, como grande referência em acessibilidade entre as arenas construídas para a Copa do Mundo de cinco anos atrás. Lá existe a elevação, e os cadeirantes não precisam se preocupar com o que os outros estão fazendo. O Beira-Rio, estádio do Internacional, em Porto Alegre, é outro lembrado: os cadeirantes ficam mais próximos ao campo, sem nenhuma fileira à frente.

Enquanto a situação não é solucionada, os torcedores se viram do jeito que podem. Armando costuma ficar no setor norte inferior com um grupo de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida que já tem até nome: Turma da Pilastra.

“De galera”, eles conseguem ocupar espaço e ter mais voz para impedir que os torcedores da fileira à frente fiquem em pé. Omar senta no setor ao lado, o leste inferior, e enfrenta uma dificuldade maior. Ele relata que o local é mais disputado por oferecer uma visão melhor do campo e, em jogos de casa cheia, tem a visão obstruída.

*Com supervisão do editor Herbem Gramacho

Fonte: Correio 24 Horas

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